segunda-feira, 31 de agosto de 2009

POEMAS DE JOSÉ SARAMAGO


“ÁGUA QUE Á ÁGUA TORNA”

Água que à água torna, de luz franjada,
Abre-se a vaga em espuma.
Movimento perpétuo, arco perfeito,
Que se ergue, retomba e reflui.
Onda do mar que o mesmo mar sustenta,
Amor que de si próprio se alimenta.

JOSÉ SARAMAGO

POEMA A BOCA FECHADA

Não direi:
Que o silêncio me sufoca- e amordaça.
Calado estou, calado ficarei,
Pois que a língua que falo é doutra raça.

Palavras consumidas se acumulam,
Se represam, cisterna de águas mortas,
Ácidas mágoas em limos transformadas,
Vasa de fundo em que há raízes tortas.

Não direi:
Que nem sequer o esforço de as dizer merecem,
Palavras que não digam quanto sei
Neste retiro em que me não conhecem.

Nem só lodos se arrastam, nem só lamas,
Nem só animais boiam, mortos, medos,
Túrgidos frutos em cachos se entrelaçam
No negro poço de onde sobem dedos.

Só direi,
Crispadamente recolhido e mudo,
Que quem se cala quanto me calei
Não poderá morrer sem dizer tudo.

JOSÉ SARAMAGO

4 comentários:

José Carlos Brandão disse...

Somos senhores e escravos das palavras.
Na verdade temos medo.
Desde manhã cedo
até a noite escura
convivemos com imperceptíveis lavras
da milenar angústia,
do aperto do medo primeiro.
De onde nasci?
Onde o meu fim?
Tudo que nasce morre?
Mas então nascemos para a morte?
Onde está Deus?
Está tão escuro, sob a areia, no deserto,
ouve-se claramente o silêncio de Deus.
Só nos falta ver Deus.
Estamos cegos, estam os preparados
para ver Deus.

Um grande abraço, Eduardo.
Fique com Deus.

Sonia Schmorantz disse...

Como Saramago, digo que nem sempre as palavras dizem tudo...há muito que se aprender com o silêncio também.
te amo
beijos

HSLO disse...

José Sarama é show...sucesso.


abraçaõ


Hugo

Chris disse...

Água que á água torna é um dos meus eleitos...
Uma boa semana
Chris